quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
A CULPA É DA NATUREZA?
COMO ESTARÁ ANGRA DOS REIS DAQUI A SETE ANOS?
Heitor Diniz
Angra dos Reis: imagem parece de hoje, mas é de 2002
Foto: Defesa Civil de Angra dos Reis
Bem, abramos um parênteses para um intrigante relato do problema de Angra dos Reis:
"Este ano, com o início do período chuvoso, a região de Angra dos Reis encontra-se debaixo d'água, já registrando dezenas de mortes (...)
É verdade que a topografia local, com a presença de muitos morros, somada à ocupação desordenada de terrenos e ao desmatamento das encostas pela própria população, contribui diretamente para essas ocorrências. E quando ocorrem as enchentes e contabilizam-se as vidas humanas perdidas, começa-se também a promessa de liberação de recursos, aparece a Defesa Civil para interditar áreas e tomar outras providências, enquanto o correto seria proibir e evitar que áreas de risco continuem a ser ocupadas sob qualquer pretexto (...)
... diante de uma tragédia dessa ordem não cabe a discussão ou identificação de culpados, e, sim, a união de esforços para amenizar o sofrimento do povo e evitar efeitos catastróficos de ocorrências futuras.
Acena o Governo Federal, por intermédio do Ministério da Integração Nacional, a possibilidade de liberar recursos para a recuperação dos danos em Angra dos Reis. Porém, faço aqui um apelo aos Governos Federal, Estadual e Municipal e às autoridades envolvidas, para que se umam no combate às enchentes em sua origem, e não apenas por ocasião das catástrofes, evitando, assim, que episódios como esse não se repitam a cada período chuvoso".
Fecho o parênteses agora, citando a fonte. Os trechos acima foram extraídos do discurso da deputada federal Almerinda de Carvalho.
Mas... Alto lá! Almerinda de Carvalho não consta na relação de deputados da Câmara!
Ah, sim! Vejo aqui que, após oito anos na Casa, não conseguiu se reeleger em 2006, tendo seu nome envolvido nas investigações sobre a máfia dos sanguessugas (em tempo: neste texto, especificamente, o problema dos sanguessugas não vem ao caso). Voltou para sua cidade natal, São João de Meriti, ocupando o cargo de presidente da Cruz Vermelha e, atualmente, o de secretária municipal de promoção social do município.
Então, expliquemos: esse discurso da então deputada federal Almerinda de Carvalho se deu em 12 de dezembro de 2002, portanto, há mais de sete anos. Mas as declarações passariam facilmente como sendo dos últimos dois dias, não é mesmo?
Mudo um pouco a pergunta do título: como estava Angra dos Reis sete anos atrás, ao que, de pronto, respondo: rigorosamente como está hoje, completamente relegada aos humores das intempéries climáticas (mais ou menos como o sistema elétrico nacional, segundo o ministro das Minas e Energia Edison Lobão, que atribuiu recente apagão nacional às forças da natureza).
Agora, como em 2002, não adianta vir botar a culpa na população, que, irresponsavelmente, instalou-se aos pés de encostas nada estáveis. É papel do poder público impedir que isso aconteça, mesmo que, para isso, seja necessário o emprego da força. Convenhamos, é melhor uma desapropriação forçada do que escavações à procura de corpos.
Contudo, enquanto as mazelas e omissões da incompetência administrativa continuarem sendo travestidas de (e atribuídas aos) humores meteorológicos, tragédias como a deste reveillon (e como aquela do fim de 2002) continuarão ocorrendo. E temo que a resposta ao título deste texto seja: rigorosamente como está hoje.
No link abaixo, imagens da tragédia de 2002 e a constatação do quanto elas parecem atuais: http://www.defesacivil.angra.rj.gov.br/defesacivil/asp/tragedia.asp
Publicado no blog Crônica Política (http://www.dzai.com.br/heitordiniz/blog/cronicapolitica?tv_pos_id=51333), em 03/01/2010.
TRAGÉDIA DE ANGRA - CABRAL TEM RAZÃO
Sem essa de que a chuva foi a principal razão dos deslizamentos de terras que mataram 50 pessoas em Angra dos Reis.
Socorro-me do governador Sérgio Cabral. Ele disse que aquela foi uma tragédia anunciada.
Por que? Cabral não explicou direito. Mencionou que "não se pode brincar com o solo". E que "não se pode ter construção perto de montanha e de espalho d´água". Em Angra tem de sobra.
Sinto-me tentado a seguir o exemplo de um antigo e sagaz repórter do Diário de Pernambuco.
Nos anos 60 houve um incêndio no Recife que os bombeiros não conseguiram debelar. Apagou-se sozinho.
O repórter tentou, sem sucesso, entrevistar o chefe dos bombeiros. De volta ao jornal, escreveu:
- O chefe dos bombeiros não quis dizer nada. Mas pelo seu semblante dava para notar que ele estava irritado com a pouca água dos hidrantes, com a falta de escadas para atingir grandes alturas...", e por aí foi.
O que Cabral quis dizer quando chamou de "anunciada" a tragédia de Angra?
"Anunciada" virou um cacoete de linguagem desde que o colombiano Gabriel García Márquez publicou "Crônica de uma Morte Anunciada", uma novela.
Por "anunciada", deve-se entender "previsível".
Como sempre chove forte nesta época no Rio, e como o volume da chuva não bateu nenhum recorde, imagino dado ao semblante exibido na ocasião por Cabral que ele quis livrar a chuva da condição de única culpada pelo que aconteceu.
(Vejam que caminho com excesso de cuidado pela vereda que o repórter do Diário de Pernambuco inaugurou.)
A tragédia de Angra só pode ser classificada de "previsível" ou de "anunciada" se levarmos em conta a combinação mortal de chuva forte com habitações plantadas em locais inseguros.
Não lhes parece uma conclusão óbvia? Estamos, pois, de acordo?
Nesse caso cabem várias perguntas.
A prefeitura de Angra nunca avaliou que estava pronto o cenário para uma tragédia?
Nunca alertou a respeito o governo do Estado?
Por sua vez nenhum órgão do governo estadual se tocou para o que estava por vir?
Tuca Jordão (PMDB), atual prefeito de Angra, não pode fingir que não sabia. É sobrinho do prefeito anterior que governou Angra durante oito anos. Trabalhou com ele. Preparou-se para sucedê-lo.
Transcrevo do site da prefeitura um resumo do seu currículo:
* Tuca Jordão é engenheiro civil. Nascido e criado em Angra, começou sua vida pública em 2002 como engenheiro de projetos. Logo depois assumiu a subsecretaria de Obras e Serviços Públicos, quando reestruturou todas as regiões administrativas e criou as subprefeituras, levando cidadania para quem mora longe do Centro.
* Em 2005, Tuca assumiu a Secretaria de Habitação e realizou o sonho da casa própria de milhares de pessoas, com destaque para o primeiro condomínio vertical da cidade. Ele também implantou o maior projeto de regularização fundiária da história de Angra, que garante o direito à terra e à moradia de milhares de famílias.
* Em 2007, Tuca participou da fusão das secretarias de Habitação e Serviços Públicos - que incorporou ainda as quatro subprefeituras -, mostrando toda sua experiência técnica e administrativa. Mas o desafio maior veio em 2008 quando Tuca acumulou a responsabilidade pela Secretaria de Obras, dando maior agilidade aos projetos e realizações no Município.
É impossível acreditar que um homem com tal experiência desconhecesse o perigo que rondava seus governados.
Aqui não se discute se Tuca é um político honesto ou venal, sensível à cobrança de propinas para facilitar construções irregulares.
Sequer precisa ser venal. Um mês depois de eleito, os vereadores de Angra reajustaram seu salário em 39%. E Tuca passou a ganhar R$ 23 mil - quase o dobro do que ganhava o prefeito de São Paulo.
É fato que Tuca está sendo processado - mas por outro motivo. Beneficiou-se, segundo a acusação, do transporte gratuito de barco entre Provetá (Ilha Grande) e Angra dos Reis oferecido pelo tio-prefeito à população. Em troca, moradores de Provetá e de Angra votaram nele.
Descarte-se a hipótese de Tuca e Cabral serem desafetos. E de que isso tenha dificultado o entendimento entre os dois. Não são. Pertencem ao mesmo partido - o PMDB. Dão-se muito bem.
Em junho último, Cabral baixou um decreto que afrouxou as regras para construções em áreas de preservação ambiental de Angra dos Reis e de suas ilhas.
Os ambientalistas de Angra e do Estado subiram nas tamancas. Tuca não subiu.
Dedução óbvia: o prefeito avaliza o decreto de Cabral que está sendo contestado na Justiça.
Digo aos apressadinhos que a recente tragédia de Angra nada teve a ver com o decreto.
Futuras tragédias, se o decreto não for revogado, essas, sim, poderão carregar a indelével impressão digital de Cabral.
A tragédia que ainda se chora é uma obra coletiva dos governos passados em todos os níveis, mas também dos atuais.
Se Cabral anunciou que há 3 mil construções irregulares em Angra, e também que para desapropriá-las o "Orçamento não é problema", por que não agiu antes de modo a evitar a consumação de uma "tragédia anunciada"?
Só agora descobriu as construções irregulares?
Só agora descobriu que o "Orçamento não é problema?"
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
POÉTICAS DA RESISTÊNCIA, SONHOS DE LIBERDADE
O jornal catalão Avui (Hoje), em sua edição online de 15 de outubro último, traz uma notícia das mais comoventes. Segundo o jornal, cerca de 5 mil pessoas estiveram presentes ao ato Poètiques de resistència. Somnis de llibertat (Poéticas de resistência. Sonhos de liberdade), realizado na noite anterior pelo Memorial Democràtic, em Barcelona, para homenagear as pessoas perseguidas pelo regime ditatorial do general Francisco Franco, que durou de 1939 a 1975. O ato, que foi realizado no Palau Sant Jordi (Palácio São Jorge), contou com a leitura de poemas e com a apresentação de dois dos maiores nomes da música popular catalã, Joan Manuel Serrat e Quico Pi de la Serra, fechando com o coral Orfeó Català.Mas o que esse acontecimento tem de tão especial? Em primeiro lugar, o fato de se tratar da primeira homenagem dedicada às vítimas da repressão do regime franquista, um dos regimes políticos mais sangrentos da Europa, de caráter extremamente conservador e autoritário. Em segundo lugar, o fato de a homenagem ter ocorrido exatamente em Barcelona, capital da região da Catalunha, que teve sua histórica autonomia relativa negada pelos franquistas, marcadamente pela proibição do uso da língua catalã.
No ato esteve presente boa parte do governo catalão e personalidades do mundo da política, que puderam recordar, através da poesia e da música, as experiências vividas durante a ditadura franquista na Catalunha. Entre o público, aliás, se podiam ver algumas bandeiras republicanas – muitos catalães reivindicam a independência total em relação à Espanha – e ouvir gritos de “Visca la República!” (Viva a República!) e “Visca Catalunya!” (Viva a Catalunha!).
Na primeira parte do ato, atores e atrizes catalães e castelhanos recitaram textos como Abans que neixi l'alba (Antes que nasça a aurora), de Joan Vinyoli, Assaig de càntic en el temple (Ensaio de cântico no templo), de Salvador Espriu, Vacances pagades (Férias remuneradas), de Joan Oliver, entre várias outras obras poéticas de resistência ao franquismo. Em seguida foi a vez dos consagrados cantores e compositores Joan Manuel Serrat e Quico Pi de la Serra, numa apresentação a duas vozes de sucessos e temas emblemáticos dos respectivos repertórios. Um público completamente extasiado vibrava com canções como Pare (Pai), de Serrat, e Si els fills de puta volessin no veuríem mai el cel (Se os filhos da puta voassem nunca mais nós veríamos o céu), de Pi de la Serra, símbolos da luta antifranquista.
Os dois artistas, aliás, se mostraram emocionados por poderem participar de um ato dessa natureza. Pi de la Serra, por exemplo, assegurou que participava do ato “com um coração muito exigente” porque essas “são coisas que [...] devemos continuar lembrando para que não se repitam mais”. Serrat, por sua vez, criticou os que reclamaram do ato com o argumento de que “não se deve mexer no passado” porque, segundo ele, “devem ter alguma coisa no passado que não lhes interessa que sejam remexidas”, concluindo que o passado “é a única chave que temos para abrir as portas do futuro”.
Segundo o jornal, um dos momentos mais emocionantes da noite foi quando os cantores e o maestro do Orfeó Català, visivelmente emocionados pela recepção calorosa do público, cantaram canções que são consideradas como hinos catalães à liberdade como Què volen aquesta gent? (O que esta gente quer?), da cantora e compositora Maria del Mar Bonet, A galopar, de Paco Ibáñez, Com un arbre nu (Como uma árvore nua), de Lluís Llach, ou Al vent (Ao vento), de Raimon – certamente, os mais consagrados representantes da música popular catalã da época da repressão franquista, reunidos num movimento que ficou conhecido como Nova Cançó.
A ideia dessa celebração surgiu em 2002, quando, em um ato público celebrado no Gran Teatre del Liceu, em Barcelona, a Associació d’Expresos Polítics (Associação de Ex-Presos Políticos) reivindicou a recuperação da memória histórica contra a ditadura e a criação de uma entidade para difundir essa memória entre as novas gerações, a partir da qual foi criado o Memorial Democràtic. O Secretário do Interior da Catalunha, Joan Boada, explicou que a homenagem era uma dívida tanto da Generalitat (o governo autônomo da Catalunha) como da sociedade catalã para com os perseguidos pelo franquismo, além de destacar que esse “podia ser o começo da luta por um espaço onde possamos expressar tudo o que o franquismo significou para que nunca mais se esqueça”.
Não sei se quem lê este texto faz as mesmas analogias que eu faço com o Brasil. A ditadura franquista acabou há 34 anos; a brasileira, há 24. Ao longo desse tempo tivemos, no Brasil, algumas iniciativas importantes no sentido de não deixar esquecer os horrores da ditadura militar, com destaque especial para o grupo Tortura Nunca Mais. Mas, que eu saiba, não houve até hoje nenhuma iniciativa no sentido de que os que viveram a ditadura militar não esqueçam o que ela foi e os que não a viveram tomem conhecimento dos crimes que cometeu, das barbáries em nome da ordem e da segurança nacional: censura às artes e aos meios de comunicação, perseguições políticas, prisões arbitrárias, desaparecimentos, tortura, exílio, mortes. Lá na Espanha, o povo catalão não apenas não quer esquecer como acredita que lembrar é a única chave que tem para abrir as portas do futuro. Dá o que pensar, não?
terça-feira, 13 de outubro de 2009
GRACIAS A LA NEGRA, QUE ME HA DADO TANTO...
Foi através de um amigo brasileiro casado com uma paraguaia que conheci a voz de Mercedes Sosa. O momento foi dos mais inusitados: a festa do primeiro aniversário de seu filho mais novo, Pablito, em Petrópolis, em meados da década de 1970. Inusitado porque uma festa de aniversário (e ainda mais infantil) não é propriamente o lugar mais provável para se ouvir o tipo de música que Mercedes Sosa sempre se propôs cantar. Inusitado porque em Petrópolis, a imperial, discreta e pacata cidade escondida na Serra dos Órgãos. Inusitado também porque meu amigo não era exatamente o que se pode chamar de progressista, perfil político da quase totalidade dos fãs da cantora. Não sei como aquela fita cassete que parecia já surrada pelo uso foi parar na casa do meu amigo. Imagino que a voz de Mercedes Sosa tenha chegado até ele através da sogra, uma militante comunista paraguaia de quem a filha parecia ter herdado muito pouco além do encantamento diante da voz de “la Negra”.Lembro-me perfeitamente do aperto no coração ao ouvir, na casa petropolitana do meu amigo, os contundentes versos finais de Zamba para no morir: Veo el campo, el fruto, la miel / y estas ganas de amar. / No me puede el olvido vencer, / hoy como ayer siempre llegar. / En el hijo se puede volver / nuevo. Apesar dos meus ainda parcos conhecimentos do idioma espanhol, a mensagem de resistência e de esperança estava lá, não apenas na letra que eu ainda não podia entender completamente, mas principalmente naquela voz ao mesmo tempo de lamento e de certeza, de uma derrota vitoriosa, se assim se pode dizer. Também nos versos de Juana Azurduy, recontando a muitas vezes já contada história, em prosa e verso, da heroína guerrilheira de finais do século XVIII e começo do XIX no então Alto Perú (atualmente, Bolívia), na luta contra a Espanha pela independência. Era todo um mundo que se descortinava para mim, que me despertava a ideia de que eu era tão americano quanto os estadunidenses, que me fazia tomar contato com a noção – e que parece obsoleta hoje para muitos – da Patria Grande de Simón Bolívar.
Foi a partir daquele encontro inusitado com Mercedes Sosa em Petrópolis, numa festa de aniversário infantil, que muito da minha visão de mundo, da minha consciência crítica e do meu gosto musical começou a se moldar. É, portanto, por agradecimento, que escrevo estas linhas para registrar a tristeza que o silêncio da voz de Mercedes Sosa me causou, no último dia 4, e ainda me causa. Como ela mesma cantou, si se calla el cantor / calla la vida.
Para quem viveu na América Latina nos últimos 40 anos, é razoavelmente bem informado e/ou freqüenta um universo político que se costuma denominar de “de esquerda”, é impossível resumir a importância de Mercedes Sosa a um simples obituário numa página de jornal ou aos breves comentários dos noticiários da TV. Uma mulher que foi, ao mesmo tempo, profundamente indígena e imensamente universal.
Integrada a um movimento musical que na América Latina se convencionou chamar de “Nueva Canción”, Mercedes começou cantando peças do cancioneiro popular, anônimo, cuja temática são quase sempre as lutas do cotidiano de pessoas simples do povo. Ou de poetas e compositores consagrados que tinham como inspiração esses artistas populares.
No entanto, Mercedes, que era argentina de Tucumán, norte do país, nascida em 1935, não cantava apenas os poetas argentinos. Seu repertório veio de praticamente todos os países latinoamericanos, desde que a temática levasse à reflexão sobre uma América Latina livre da opressão, das desigualdades sociais e infundisse em seu público a esperança.
Comunista assumida, em 1979, quando a Argentina vivia sob a pesada ditadura do general Jorge Rafael Videla, Mercedes Sosa exilou-se na Europa, depois de ter sido presa num show em La Plata. E foi esse exílio que lhe deu sua grande projeção internacional, que passou a ser vista pelos fãs – exilados, como ela, ou oprimidos por ditaduras dentro de seus próprios países – como a voz que embalava a luta pela liberdade, não só na América Latina, mas mundo afora. Na época, ela já era bastante conhecida em sua terra, onde, desde os meados dos anos 1960 – quando lançou “Yo no canto por cantar”, Mercedes se tornou uma das principais expressões do novo cancioneiro latinoamericano, marcado pela mistura, tanto nos ritmos como nas letras, das tradições culturais dos países latinos, suas paixões políticas e afetivas.
No Brasil, sua voz se tornou mais conhecida a partir de 1976, através de um memorável dueto com Milton Nascimento, com quem gravou Volver a los 17. Desde então, seu bombo legüero, seu poncho e sua voz encantadora jamais ficaram muito distantes do Brasil. A gravação, que lhe custou uma investigação pelos órgãos da ditadura brasileira, era da mãe da canção de protesto latinoamericana, a compositora e artista plástica chilena Violeta Parra, que havia se suicidado anos antes, depois de deixar poéticos e vibrantes testemunhos de sua luta pela liberdade e de sua conturbadíssima vida amorosa em letras como Gracias a la vida ou a dolorosamente militante La carta (Me mandaron una carta / por el correo temprano, / en esa carta me dicen / que cayó preso mi hermano...).
Nos anos que se seguiram, foi a voz de Mercedes que nos conduziu pelos corredores, labirintos e todos os cantos – mágicos ou sinistros –, da América Latina. Foi assim nos sombrios anos da década de 1970.
Para muitos de nós, brasileiros, que, deformados pela ideologia dominante, às vezes nos esquecemos que somos, também e sempre, latinoamericanos, foi também a poderosa e comovente voz de Mercedes que nos guiou pelos vales e cordilheiras dos Andes, pelas ruas de Buenos Aires e Santiago, mas também sempre nos deixando perto de Cuba, da Nicarágua, de El Salvador ou onde quer que houvesse alguma luta contra a opressão e as injustiças.
Para os que tiveram o privilégio de ver Mercedes Sosa – eu fui assisti-la uma gloriosa vez no Maracananzinho – “la Negra” era como uma daquelas grandes deusas tão presentes nas tradições míticas latinoamericanas, mas também em várias das lendas da mitologia mundial. Grandes cabelos negros (daí o apelido), voz poderosa para protestar contra as injustiças e, ao mesmo tempo, suave, quase sussurando para falar do amor, Mercedes não dominava apenas o palco, mas toda a plateia, hipnotizando a todos nós, que seríamos perfeitamente capazes de sair de seus shows seguindo-a num exército de indignados se ela assim o desejasse.
Testemunho fiel das idéias às quais se manteve fiel até o fim da vida, inclusive a defesa de uma sociedade comunista, a canção Corazón libre, que ela cantou em sua última vinda ao Brasil, é uma espécie de testamento. Nela está registrado o poderoso verso em que Mercedes Sosa dialoga com a morte: Adelante, corazón, sin medo de la derrota. / Durar nos es estar vivo, corázon. Vivir és otra cosa.
Viver, de fato, é outra coisa. Viver é lutar, sonhar, se indignar, mas também saber tirar o máximo da vida, saber arrancar poesia das adversidades. Acima de tudo, viver é ter consciência do nosso papel no mundo. Por isso, não há dúvidas de que Mercedes viveu. E viverá para sempre em suas canções e em nossas lutas.
*Partes deste texto, na verdade, pertencem à crônica “Gracias, Mercedes! Adios, Negra, hermana hermosa!”, de Wilson H. da Silva, publicada no blog Mimecry Ilinx Courrier, http://sturmydrang.blogspot.com/, em 10/10/2009.
domingo, 12 de julho de 2009
OS POEMAS PARA A LIBERDADE DE MANOEL DE ANDRADE: A POESIA COMO ARMA

A editora paulistana Escrituras acaba de lançar o livro Poemas para a Liberdade, do poeta catarinense Manoel de Andrade (http://www.escrituras.com.br/livro.php?isbn=9788575312902), do qual já havia publicado, em 2007, Cantares. Poemas para a Liberdade é, na verdade, é uma reedição. Publicado inicialmente na Bolívia, no Peru e na Colômbia, em 1970, e no Equador, em 1971, é um conjunto de poemas que falam da luta armada e cantam a saga guerrilheira na América Latina dos anos 1970, então controlada por ditaduras militares. Independentemente do seu valor histórico inestimável, Poemas para a Liberdade é uma obra da qual, apesar de tudo, transbordam delicadeza, amor, esperança e por isso consta de vários catálogos de literatura latinoamericana e seus poemas, de várias antologias, como Poesía Latinoamericana – Antología Bilingüe, publicada em 1998, pela editora Epsilon, do México, cujas páginas o autor compartilha, entre outros, com poetas consagrados como o uruguaio Mario Benedetti, falecido este ano.
Os mais jovens talvez não saibam. Os que sabem nem sempre se lembram. E os que lembram provavelmente não sintam mais aqueles sentimentos angustiantes e ao mesmo tempo cheios de esperança que moviam milhares de jovens na América Latina em busca de uma sociedade justa e fraterna. Falo dos chamados “anos duros” da ditadura militar no Brasil, logo acompanhada por outras ditaduras, e das lutas de resistência, com as armas possíveis e as imaginadas, contra o autoritarismo, a falta de liberdade e a barbárie que entre as décas de 1960 e 1990 povoaram boa parte da América Latina.
Entre esses jovens havia um, chamado Manoel de Andrade, vindo do interior de Santa Catarina, que começou a se destacar entre os colegas (na época ficaria melhor o termo “companheiro”) de Curitiba, onde decidiu viver, pelo caráter engajado de sua poesia.
Lembre-se que “engajado”, naquela época, era sinônimo de “subversivo” e, quase sempre, também de “comunista”, “palavrões” que, naqueles tempos de Guerra Fria, podiam também ser traduzidos como o “Mal”, em oposição ao “Bem”, representado pelo “Mundo Livre”, isto é, os EUA e seus aliados (quase sempre muito mais por medo do que por afinidade ideológica).
Em 1965, Manoel de Andrade, com sua poesia militante, ganhou o 1º prêmio do Concurso de Poesia Moderna, do Centro de Letras do Paraná. No mesmo ano, participou da histórica Noite da Poesia Paranaense, ao lado de poetas hoje consagrados como Helena Kolody, João Manuel Simões e o grande poeta e compositor Paulo Leminski, no teatro Guaíra, de Curitiba. Em 1968, aos 28 anos, é apontado pela imprensa paranaense como uma dos seus três grandes destaques literários, junto com Jamil Snege e o contista Dalton Tervisan. No mesmo ano, a revista Civilização Brasileira publica seu poema “Canção para os homens sem face”:
Canto a vergonha de ser brasileiro num tempo defecado
canto meu povo
e se ainda não canto meu país,
é porque não sei cantar na presença de homens indecentes;
eu canto sobretudo para aqueles que preservaram seu sonho,
para os que ousaram lutar e morrer por ele,
canto a memória de um guerrilheiro argentino.
E eis que meu verso se endurece
para que eu cante meu melhor combate
e só assim posso cantar para os irmãos e camaradas
recrutando companheiros para a luta...
e quando meu canto é feito para os ouvidos dos justos,
eu canto sem temor [...]
[...]
Como guerreiros invisíveis
meus versos se infiltrarão no país dos corruptos
pelas fronteiras das entrelinhas
e renascerão nos lábios dos militantes
ora como uma flor, ora como um fuzil.
Talvez, mesmo que esses versos façam algum sentido para você e mesmo que possam ser identificadas, lá no distante 1968, vergonhas muito parecidas com as de hoje, e que possamos também reconhecer este nosso tempo, de democracia e liberdade, como um “tempo defecado”, de “homens indecentes” ou um “país dos corruptos”, talvez seja quase impossível imaginar o que significava isso naqueles “anos de chumbo”. Outras palavras do poema expressam melhor que clima era aquele: eram os tempos dos “que ousaram lutar e morrer”, que evocava “a memória de um guerrilheiro argentino” – Ernesto Che Guevara, morto no dia 8 de outubro do ano anterior em nome de uma luta que se pretendia internacional contra a injustiça do capitalismo e, particularmente na América Latina, contra a opressão dos ditadores. Por isso o poema de Manoel de Andrade era feito de versos para “cantar para os irmãos e camaradas”, “recrutando companheiros para a luta”, “ora como uma flor, ora como um fuzil”.
Não podia ter dado outra coisa. Em março de 1969, perseguido pelo regime militar, principalmente pelo fato de ter feito panfletagem de seu poema “Saudação a Che Guevara”, Manoel de Andrade foge do Brasil. Nessa época sua poesia já começava a ser conhecida por todo o país por meio de jornais e revistas literárias. Nos perigosos versos que lhe valeram a fuga do país, ele dizia:
No nosso ódio indigesto
na voz da rebelião,
na passeata de protesto
em cada homem sem pão,
em cada cidadão livre
que é metralhado na rua,
no seio de cada greve
no salário de quem sua,
no estômago que late
na opressão e na fome
nesse mal que nos consome
como farol claro e forte
surge tua imagem, teu nome
teu braço de guerrilheiro
teu sonho e tua verdade
nos apontando o roteiro
em busca da liberdade.
A força e a contundência desses versos, hoje, podem parecer ingenuidade, coisa de uma juventude demasiadamente crédula, especialmente empolgada com o sucesso da Revolução Cubana, em janeiro de 1959, e com seu herói mais charmoso, Che Guevara, filho de uma família de classe média argentina que, depois de percorrer toda a América Latina, conhece, no México, os irmãos Fidel e Raúl Castro e, com um pequeno grupo, resolve se meter numa “avemtura” que por acaso deu certo. Mas, insisto, não é possível ter uma visão minimamente clara daqueles jovens (que, aliás, se transformaram em alguns de nós atualmente ou já nos pais de muitos outros que agora lêem esse meu post) e, consequentemente, da poesia de Manuel de Andrade sem nos fixarmos na época em que tudo isso aconteceu. Ou, então, como explicar que um simples poema pudesse ser o principal responsável pela saída de alguém do próprio país, deixando pra trás família, amigos, projetos, o curso de uma vida?
Mas a vida de cavaleiro andante de Manoel de Andrade estava só começando. Ao deixar o Brasil foi para a Bolívia, onde continuou escrevendo e divulgando seus poemas engajados. Em 1970 é lançado, pelo Comitê Central Revolucionário da Universidad Mayor San Andrés, em La Paz, seu primeiro livro, Poemas para la libertad, publicado também pelas federações universitárias de Cuzco e de Arequipa, no Peru, que foram consumidas e reeditadas em todo meio estudantil do Peru e cujos exemplares se espalharam por toda a América do Sul, levados por mochileiros e estudantes latinoamericanos.
Mas a ampla aceitação de seus poemas pela juventude universitária não deram a Manoel de Andrade nenhuma tranquilidade. Muito pelo contrário, essa aceitação representava ainda mais perigo, perseguições, fugas. Expulso da Bolívia em 1969, antes da publicação de seu livro, foi para o Peru, de onde também foi expulso, no ano seguinte, e para a Colômbia, onde, no mesmo ano, sofre o mesmo destino. O alcance da sua militância política pode ser avaliado pelo destaque que na época os mais importantes jornais da América Latina e as maiores agências internacionais de informações, como a AP e a UPI, deram a ele. Numa época em que não havia telefones celulares nem internet, pode-se imaginar o perigo que seus poemas revolucionários podem ter representado.
Conhecido por promover debates, ministrar palestras e declamar seus versos em universidades, teatros, galerias de arte, festivais de cultura, congressos de poetas, sindicatos, reuniões públicas, privadas e clandestinas e até no interior das minas de estanho da Bolívia, Manoel de Andrade e seus versos não podiam ser vistos como nada menos do que muito perigosos. Por isso o governo peruano o expulsa do país “por realizar atividades que constituem um manifesto perigo para a tranquilidade pública e segurança do Estado”.
Mas a aventura de Manoel de Andrade não pararia aí. Em 1971 estava no México, onde, entre outras coisas, se apresentou no Instituto Mexicano-Cubano; participou das comemorações do 37º aniversário de morte do herói revolucionário nicaraguense Augusto César Sandino; viajou para a Califórnia, nos EUA, onde ministrou várias palestras e recitais em organizações chicanas e nas universidades de Los Angeles e Berkeley. É o próprio autor quem nos conta, generosamente, parte dessa trajetória:
Eu chegara ao México, depois de cruzar, ao longo de três anos, todos os países da América Latina (exceto Venezuela) e trazia, desfraldada na alma, a bandeira das lutas de liberação nacional que incendiavam o Continente e por isso, depois do meu recital no Instituto Mexicano-Cubano, na Cidade do México, fui "convocado" para levar aos Chicanos (norteamericanos de origem mexicana) a notícia do que se passava na América, como um estímulo à sua luta no contexto de segregação em que viviam dentro das próprias entranhas do "monstro" imperialista. É uma fase belíssima da minha vida que não posso contar aqui. Meu livro "Poemas para a Liberdade", teve sua 3ª edição en San Diego. Ao cabo de três meses tive que voltar ao México para novo visto no passaporte, mas quando tentei voltar para terminar minha "missão", os yanques já não me permitiram a entrada. Do México fui para Ecuador, onde dei um cliclo de palestras na Universidade Central do Equador, sobre problemas centro-americamos [...] e mexicanos. No Equador publicaram a 4ª edição do meu "Poemas para a Liberdade". Depois de dois meses tive que sair correndo de Quito (onde cheguei a primeira vez, expulso do Peru e a segunda, espulso da Colômbia) porque fui acusado pelos estudantes de agente da CIA. (Eles não entendiam como é que eu corria a America Latina, pra cima e pra baixo, e estava sempre infiltrado entre a classe estudantil e o pessoal de esquerda.) Fui alertado por um amigo estudante de arquitetura e saí por Quayaquil, num transatlântico italiano (Rossini) e entrei, sem problemas, no Peru, pelo porto de Callao. Resolvidos alguns problemas no Peru, fui pro Chile de Allende, onde comecei a escrever minhas memórias de viagem e artigos para o jornais e revistas sobre o problema dos chicanos e sobre o colonialismo português na África. Minha mulher foi pra Santiago e, pela minha filha, voltei com ela pro Brasil em meados de 72, e em Curitiba, depois de descobrir que o DOPS já sabia da minha volta e me procurava, transferi minha OAB para Santa Catarina, para tentar advogar. Mas também lá o clima de repressão e espionagem era terrivel. Era a época em que estava começando a Guerrilha do Araguaia. Voltei pra Curitiba e passei a viver no anonimato social e literário. Por indicação de um amigo, e para sobreviver, fui vender a Enciclopedia Delta Larousse. Ninguem sabia onde eu estava. Somente aparecia no fim do mês para entregar os meus contratos de venda e receber minha comissão. Em seguida sumia pelo interior do Paraná ou Santa Catarina e somente minha família sabia de mim. Foi uma bela estratégia porque eu pude trabalhar e me esconder ao mesmo tempo.
[...]
Voltei a escrever em setembro de 2002 [...], durante os 30 anos que não escrevi nada, mas tive uma vida muito intensa e acabei esquecendo que eu era poeta [...], mas também tive uma vida intelectual muito rica.
Tive o privilégio de conhecer Manoel de Andrade graças à coincidência de termos uma amiga em comum, a antropóloga e historiadora Philomena Gebran, a quem ele não via há mais de 30 anos e que, através de mim, graças às maravilhas da internet, pôde reencontrar em Curitiba, onde ambos moram atualmente. Somos, portanto, apenas amigos virtuais. Mas é como se fôssemos amigos há muitos anos, compartilhando a maior parte dos sonhos, das grandes frustrações e, principalmente, as esperanças que os muitos sustos da vida não conseguiram levar. Naqueles tempos difíceis parecia para muitos que a força das armas – e, no caso de Manoel Andrade, a sua eram os versos – era o caminho. Hoje, não sei qual o caminho (e acredito que ele também não), mas continuo acreditando, como ele, em uma sociedade justa, humana, fraterna. Por isso recomendo com veemência a leitura dos seus Poemas para a Liberdade. Pelo menos para que os que não saibam fiquem sabendo, os que sabem se lembrem e os que lembram voltem a pensar sobre a esperança.
terça-feira, 21 de abril de 2009
SOMÁLIA: ESTÃO NOS MENTINDO SOBRE OS PIRATAS
Têm ocorrido várias mudanças na minha vida pessoal. Mudanças que me têm tomado bastante tempo. Por isso tenho andado bastante afastado das minhas "obrigações" para com o blog. Estou devendo, por exemplo, um comentário sobre o belo livro Poemas para a Liberdade, do poeta catarinense Manoel de Andrade, que prometo ser meu próximo post.
