quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A CULPA É DA NATUREZA?

Sou morador de Angra dos Reis, de um condomínio que fica na base de uma montanha. Passei o réveillon em casa, recebendo amigos que viram do Paraguai para desfrutar das belezas da região (e que, obviamente, já foram embora – quem não iria?). A menos de 500m de onde eu moro caiu uma barreira, interditando metade da rodovia Rio-Santos no sentido Angra-Paraty. Uns 200m à frente, parte da pista no sentido Paraty-Angra ruiu. Nesse lugar, a bem da verdade, já estavam sendo realizadas obras de sustentação da pista, que ameaçava se desmoronar, consequência de período de chuvas anterior. Felizmente, o condomínio onde moro não sofreu nenhum dano. E, pelo que dizem seus moradores mais antigos, há mais de 20 anos vem enfrentando as fortes chuvas que invariavelmente caem no verão do dessa bela região, espremida entre o mar e a montanha, sem nada sofrer. Para uns isso é só coincidência; para outros, proteção divina. Prefiro acreditar que, provavelmente, essa “sorte” tem mais a ver com o fato de ele ter sido construído visando à menor agressão possível ao meio ambiente, beneficiando-se das belezas da Mata Atlântica, sem, no entanto, promover a devastação tão comum para os que acreditam que o “progresso” (quase sempre um sinônimo para “poder do dinheiro”) pode tudo. Isso, obviamente, não me tornou imune à tristeza, ao sofrimento e à dor que tomaram conta da cidade desde o último dia 31 – isso sem contar os prejuízos econômicos para uma cidade que nesta época do ano tem como principal atividade econômica o turismo. Por partilhar dessa dor com os mais desafortunados e por ter este espaço para expor minhas ideias, desde o primeiro dia do ano tenho pensado em escrever algo para contribuir para a reflexão sobre o que aconteceu em Angra dos Reis e para ajudar a pensar se e como é possível nos livrarmos dessa armadilha – que às vezes parece ser inevitável – da sequência chuvas-deslizamentos-mortes-dor-desabrigados-reconstrução-esquecimento, até a próxima tragédia. No entanto, morri de medo de voltar a escrever sobre o óbvio, de não conseguir ultrapassar o senso comum, de ser injusto com as autoridades e/ou ofensivo para com as vítimas de desabamentos, principalmente com aquelas que, além de perderem seus bens, tiveram o infortúnio de perder amigos e parentes. Por isso não escrevi nada até hoje. Hoje, no entanto, um colega de trabalho me enviou uma mensagem em que um jornalista chamado Heitor Diniz (pelo que pude perceber, morador de Belo Horizonte), em uma mensagem em seu blog pessoal intitulada “Como estará Angra daqui a sete anos?” Por ele ser alguém que não vive na cidade e que, provavelmente, não veio aqui para ver de perto a tragédia, fiquei impressionado com a clareza e a lucidez do que escreveu. Buscando informações sobre o autor, cheguei ao blog do jornalista Ricardo Noblat, onde outra mensagem, denominada “Tragédia de Angra – Cabral tinha razão”. Cheguei à conclusão de que se escrevesse uma mensagem sobre o tema não diria muito mais do que esses dois textos, que publico em sequência, sem a autorização dos autores, na esperança de que compreendam minha intenção e não se sintam incomodados com a utilização de seus textos. Espero também que os textos sejam mais uma contribuição para a sua reflexão sobre estes tempos estranhos em que vivemos.

COMO ESTARÁ ANGRA DOS REIS DAQUI A SETE ANOS?

Heitor Diniz


Angra dos Reis: imagem parece de hoje, mas é de 2002

Foto: Defesa Civil de Angra dos Reis

Pergunta difícil de responder essa do título do texto? Temo que não.

Bem, abramos um parênteses para um intrigante relato do problema de Angra dos Reis:

"Este ano, com o início do período chuvoso, a região de Angra dos Reis encontra-se debaixo d'água, já registrando dezenas de mortes (...)

É verdade que a topografia local, com a presença de muitos morros, somada à ocupação desordenada de terrenos e ao desmatamento das encostas pela própria população, contribui diretamente para essas ocorrências. E quando ocorrem as enchentes e contabilizam-se as vidas humanas perdidas, começa-se também a promessa de liberação de recursos, aparece a Defesa Civil para interditar áreas e tomar outras providências, enquanto o correto seria proibir e evitar que áreas de risco continuem a ser ocupadas sob qualquer pretexto (...)

... diante de uma tragédia dessa ordem não cabe a discussão ou identificação de culpados, e, sim, a união de esforços para amenizar o sofrimento do povo e evitar efeitos catastróficos de ocorrências futuras.

Acena o Governo Federal, por intermédio do Ministério da Integração Nacional, a possibilidade de liberar recursos para a recuperação dos danos em Angra dos Reis. Porém, faço aqui um apelo aos Governos Federal, Estadual e Municipal e às autoridades envolvidas, para que se umam no combate às enchentes em sua origem, e não apenas por ocasião das catástrofes, evitando, assim, que episódios como esse não se repitam a cada período chuvoso".

Fecho o parênteses agora, citando a fonte. Os trechos acima foram extraídos do discurso da deputada federal Almerinda de Carvalho.

Mas... Alto lá! Almerinda de Carvalho não consta na relação de deputados da Câmara!

Ah, sim! Vejo aqui que, após oito anos na Casa, não conseguiu se reeleger em 2006, tendo seu nome envolvido nas investigações sobre a máfia dos sanguessugas (em tempo: neste texto, especificamente, o problema dos sanguessugas não vem ao caso). Voltou para sua cidade natal, São João de Meriti, ocupando o cargo de presidente da Cruz Vermelha e, atualmente, o de secretária municipal de promoção social do município.

Então, expliquemos: esse discurso da então deputada federal Almerinda de Carvalho se deu em 12 de dezembro de 2002, portanto, há mais de sete anos. Mas as declarações passariam facilmente como sendo dos últimos dois dias, não é mesmo?

Mudo um pouco a pergunta do título: como estava Angra dos Reis sete anos atrás, ao que, de pronto, respondo: rigorosamente como está hoje, completamente relegada aos humores das intempéries climáticas (mais ou menos como o sistema elétrico nacional, segundo o ministro das Minas e Energia Edison Lobão, que atribuiu recente apagão nacional às forças da natureza).

Agora, como em 2002, não adianta vir botar a culpa na população, que, irresponsavelmente, instalou-se aos pés de encostas nada estáveis. É papel do poder público impedir que isso aconteça, mesmo que, para isso, seja necessário o emprego da força. Convenhamos, é melhor uma desapropriação forçada do que escavações à procura de corpos.

Contudo, enquanto as mazelas e omissões da incompetência administrativa continuarem sendo travestidas de (e atribuídas aos) humores meteorológicos, tragédias como a deste reveillon (e como aquela do fim de 2002) continuarão ocorrendo. E temo que a resposta ao título deste texto seja: rigorosamente como está hoje.

No link abaixo, imagens da tragédia de 2002 e a constatação do quanto elas parecem atuais: http://www.defesacivil.angra.rj.gov.br/defesacivil/asp/tragedia.asp

Publicado no blog Crônica Política (http://www.dzai.com.br/heitordiniz/blog/cronicapolitica?tv_pos_id=51333), em 03/01/2010.

TRAGÉDIA DE ANGRA - CABRAL TEM RAZÃO

Ricardo Noblat

Tuca, prefeito de Angra

Sem essa de que a chuva foi a principal razão dos deslizamentos de terras que mataram 50 pessoas em Angra dos Reis.

Socorro-me do governador Sérgio Cabral. Ele disse que aquela foi uma tragédia anunciada.

Por que? Cabral não explicou direito. Mencionou que "não se pode brincar com o solo". E que "não se pode ter construção perto de montanha e de espalho d´água". Em Angra tem de sobra.

Sinto-me tentado a seguir o exemplo de um antigo e sagaz repórter do Diário de Pernambuco.

Nos anos 60 houve um incêndio no Recife que os bombeiros não conseguiram debelar. Apagou-se sozinho.

O repórter tentou, sem sucesso, entrevistar o chefe dos bombeiros. De volta ao jornal, escreveu:

- O chefe dos bombeiros não quis dizer nada. Mas pelo seu semblante dava para notar que ele estava irritado com a pouca água dos hidrantes, com a falta de escadas para atingir grandes alturas...", e por aí foi.

O que Cabral quis dizer quando chamou de "anunciada" a tragédia de Angra?

"Anunciada" virou um cacoete de linguagem desde que o colombiano Gabriel García Márquez publicou "Crônica de uma Morte Anunciada", uma novela.

Por "anunciada", deve-se entender "previsível".

Como sempre chove forte nesta época no Rio, e como o volume da chuva não bateu nenhum recorde, imagino dado ao semblante exibido na ocasião por Cabral que ele quis livrar a chuva da condição de única culpada pelo que aconteceu.

(Vejam que caminho com excesso de cuidado pela vereda que o repórter do Diário de Pernambuco inaugurou.)

A tragédia de Angra só pode ser classificada de "previsível" ou de "anunciada" se levarmos em conta a combinação mortal de chuva forte com habitações plantadas em locais inseguros.

Não lhes parece uma conclusão óbvia? Estamos, pois, de acordo?

Nesse caso cabem várias perguntas.

A prefeitura de Angra nunca avaliou que estava pronto o cenário para uma tragédia?

Nunca alertou a respeito o governo do Estado?

Por sua vez nenhum órgão do governo estadual se tocou para o que estava por vir?

Tuca Jordão (PMDB), atual prefeito de Angra, não pode fingir que não sabia. É sobrinho do prefeito anterior que governou Angra durante oito anos. Trabalhou com ele. Preparou-se para sucedê-lo.

Transcrevo do site da prefeitura um resumo do seu currículo:

* Tuca Jordão é engenheiro civil. Nascido e criado em Angra, começou sua vida pública em 2002 como engenheiro de projetos. Logo depois assumiu a subsecretaria de Obras e Serviços Públicos, quando reestruturou todas as regiões administrativas e criou as subprefeituras, levando cidadania para quem mora longe do Centro.

* Em 2005, Tuca assumiu a Secretaria de Habitação e realizou o sonho da casa própria de milhares de pessoas, com destaque para o primeiro condomínio vertical da cidade. Ele também implantou o maior projeto de regularização fundiária da história de Angra, que garante o direito à terra e à moradia de milhares de famílias.

* Em 2007, Tuca participou da fusão das secretarias de Habitação e Serviços Públicos - que incorporou ainda as quatro subprefeituras -, mostrando toda sua experiência técnica e administrativa. Mas o desafio maior veio em 2008 quando Tuca acumulou a responsabilidade pela Secretaria de Obras, dando maior agilidade aos projetos e realizações no Município.

É impossível acreditar que um homem com tal experiência desconhecesse o perigo que rondava seus governados.

Aqui não se discute se Tuca é um político honesto ou venal, sensível à cobrança de propinas para facilitar construções irregulares.

Sequer precisa ser venal. Um mês depois de eleito, os vereadores de Angra reajustaram seu salário em 39%. E Tuca passou a ganhar R$ 23 mil - quase o dobro do que ganhava o prefeito de São Paulo.

É fato que Tuca está sendo processado - mas por outro motivo. Beneficiou-se, segundo a acusação, do transporte gratuito de barco entre Provetá (Ilha Grande) e Angra dos Reis oferecido pelo tio-prefeito à população. Em troca, moradores de Provetá e de Angra votaram nele.

Descarte-se a hipótese de Tuca e Cabral serem desafetos. E de que isso tenha dificultado o entendimento entre os dois. Não são. Pertencem ao mesmo partido - o PMDB. Dão-se muito bem.

Em junho último, Cabral baixou um decreto que afrouxou as regras para construções em áreas de preservação ambiental de Angra dos Reis e de suas ilhas.

Os ambientalistas de Angra e do Estado subiram nas tamancas. Tuca não subiu.

Dedução óbvia: o prefeito avaliza o decreto de Cabral que está sendo contestado na Justiça.

Digo aos apressadinhos que a recente tragédia de Angra nada teve a ver com o decreto.

Futuras tragédias, se o decreto não for revogado, essas, sim, poderão carregar a indelével impressão digital de Cabral.

A tragédia que ainda se chora é uma obra coletiva dos governos passados em todos os níveis, mas também dos atuais.

Se Cabral anunciou que há 3 mil construções irregulares em Angra, e também que para desapropriá-las o "Orçamento não é problema", por que não agiu antes de modo a evitar a consumação de uma "tragédia anunciada"?

Só agora descobriu as construções irregulares?

Só agora descobriu que o "Orçamento não é problema?"

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

POÉTICAS DA RESISTÊNCIA, SONHOS DE LIBERDADE

O jornal catalão Avui (Hoje), em sua edição online de 15 de outubro último, traz uma notícia das mais comoventes. Segundo o jornal, cerca de 5 mil pessoas estiveram presentes ao ato Poètiques de resistència. Somnis de llibertat (Poéticas de resistência. Sonhos de liberdade), realizado na noite anterior pelo Memorial Democràtic, em Barcelona, para homenagear as pessoas perseguidas pelo regime ditatorial do general Francisco Franco, que durou de 1939 a 1975. O ato, que foi realizado no Palau Sant Jordi (Palácio São Jorge), contou com a leitura de poemas e com a apresentação de dois dos maiores nomes da música popular catalã, Joan Manuel Serrat e Quico Pi de la Serra, fechando com o coral Orfeó Català.

Mas o que esse acontecimento tem de tão especial? Em primeiro lugar, o fato de se tratar da primeira homenagem dedicada às vítimas da repressão do regime franquista, um dos regimes políticos mais sangrentos da Europa, de caráter extremamente conservador e autoritário. Em segundo lugar, o fato de a homenagem ter ocorrido exatamente em Barcelona, capital da região da Catalunha, que teve sua histórica autonomia relativa negada pelos franquistas, marcadamente pela proibição do uso da língua catalã.

No ato esteve presente boa parte do governo catalão e personalidades do mundo da política, que puderam recordar, através da poesia e da música, as experiências vividas durante a ditadura franquista na Catalunha. Entre o público, aliás, se podiam ver algumas bandeiras republicanas – muitos catalães reivindicam a independência total em relação à Espanha – e ouvir gritos de “Visca la República!” (Viva a República!) e “Visca Catalunya!” (Viva a Catalunha!).

Na primeira parte do ato, atores e atrizes catalães e castelhanos recitaram textos como Abans que neixi l'alba (Antes que nasça a aurora), de Joan Vinyoli, Assaig de càntic en el temple (Ensaio de cântico no templo), de Salvador Espriu, Vacances pagades (Férias remuneradas), de Joan Oliver, entre várias outras obras poéticas de resistência ao franquismo. Em seguida foi a vez dos consagrados cantores e compositores Joan Manuel Serrat e Quico Pi de la Serra, numa apresentação a duas vozes de sucessos e temas emblemáticos dos respectivos repertórios. Um público completamente extasiado vibrava com canções como Pare (Pai), de Serrat, e Si els fills de puta volessin no veuríem mai el cel (Se os filhos da puta voassem nunca mais nós veríamos o céu), de Pi de la Serra, símbolos da luta antifranquista.

Os dois artistas, aliás, se mostraram emocionados por poderem participar de um ato dessa natureza. Pi de la Serra, por exemplo, assegurou que participava do ato “com um coração muito exigente” porque essas “são coisas que [...] devemos continuar lembrando para que não se repitam mais”. Serrat, por sua vez, criticou os que reclamaram do ato com o argumento de que “não se deve mexer no passado” porque, segundo ele, “devem ter alguma coisa no passado que não lhes interessa que sejam remexidas”, concluindo que o passado “é a única chave que temos para abrir as portas do futuro”.

Segundo o jornal, um dos momentos mais emocionantes da noite foi quando os cantores e o maestro do Orfeó Català, visivelmente emocionados pela recepção calorosa do público, cantaram canções que são consideradas como hinos catalães à liberdade como Què volen aquesta gent? (O que esta gente quer?), da cantora e compositora Maria del Mar Bonet, A galopar, de Paco Ibáñez, Com un arbre nu (Como uma árvore nua), de Lluís Llach, ou Al vent (Ao vento), de Raimon – certamente, os mais consagrados representantes da música popular catalã da época da repressão franquista, reunidos num movimento que ficou conhecido como Nova Cançó.

A ideia dessa celebração surgiu em 2002, quando, em um ato público celebrado no Gran Teatre del Liceu, em Barcelona, a Associació d’Expresos Polítics (Associação de Ex-Presos Políticos) reivindicou a recuperação da memória histórica contra a ditadura e a criação de uma entidade para difundir essa memória entre as novas gerações, a partir da qual foi criado o Memorial Democràtic. O Secretário do Interior da Catalunha, Joan Boada, explicou que a homenagem era uma dívida tanto da Generalitat (o governo autônomo da Catalunha) como da sociedade catalã para com os perseguidos pelo franquismo, além de destacar que esse “podia ser o começo da luta por um espaço onde possamos expressar tudo o que o franquismo significou para que nunca mais se esqueça”.

Não sei se quem lê este texto faz as mesmas analogias que eu faço com o Brasil. A ditadura franquista acabou há 34 anos; a brasileira, há 24. Ao longo desse tempo tivemos, no Brasil, algumas iniciativas importantes no sentido de não deixar esquecer os horrores da ditadura militar, com destaque especial para o grupo Tortura Nunca Mais. Mas, que eu saiba, não houve até hoje nenhuma iniciativa no sentido de que os que viveram a ditadura militar não esqueçam o que ela foi e os que não a viveram tomem conhecimento dos crimes que cometeu, das barbáries em nome da ordem e da segurança nacional: censura às artes e aos meios de comunicação, perseguições políticas, prisões arbitrárias, desaparecimentos, tortura, exílio, mortes. Lá na Espanha, o povo catalão não apenas não quer esquecer como acredita que lembrar é a única chave que tem para abrir as portas do futuro. Dá o que pensar, não?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

GRACIAS A LA NEGRA, QUE ME HA DADO TANTO...

Foi através de um amigo brasileiro casado com uma paraguaia que conheci a voz de Mercedes Sosa. O momento foi dos mais inusitados: a festa do primeiro aniversário de seu filho mais novo, Pablito, em Petrópolis, em meados da década de 1970. Inusitado porque uma festa de aniversário (e ainda mais infantil) não é propriamente o lugar mais provável para se ouvir o tipo de música que Mercedes Sosa sempre se propôs cantar. Inusitado porque em Petrópolis, a imperial, discreta e pacata cidade escondida na Serra dos Órgãos. Inusitado também porque meu amigo não era exatamente o que se pode chamar de progressista, perfil político da quase totalidade dos fãs da cantora. Não sei como aquela fita cassete que parecia já surrada pelo uso foi parar na casa do meu amigo. Imagino que a voz de Mercedes Sosa tenha chegado até ele através da sogra, uma militante comunista paraguaia de quem a filha parecia ter herdado muito pouco além do encantamento diante da voz de “la Negra”.

Lembro-me perfeitamente do aperto no coração ao ouvir, na casa petropolitana do meu amigo, os contundentes versos finais de Zamba para no morir: Veo el campo, el fruto, la miel / y estas ganas de amar. / No me puede el olvido vencer, / hoy como ayer siempre llegar. / En el hijo se puede volver / nuevo. Apesar dos meus ainda parcos conhecimentos do idioma espanhol, a mensagem de resistência e de esperança estava lá, não apenas na letra que eu ainda não podia entender completamente, mas principalmente naquela voz ao mesmo tempo de lamento e de certeza, de uma derrota vitoriosa, se assim se pode dizer. Também nos versos de Juana Azurduy, recontando a muitas vezes já contada história, em prosa e verso, da heroína guerrilheira de finais do século XVIII e começo do XIX no então Alto Perú (atualmente, Bolívia), na luta contra a Espanha pela independência. Era todo um mundo que se descortinava para mim, que me despertava a ideia de que eu era tão americano quanto os estadunidenses, que me fazia tomar contato com a noção – e que parece obsoleta hoje para muitos – da Patria Grande de Simón Bolívar.

Foi a partir daquele encontro inusitado com Mercedes Sosa em Petrópolis, numa festa de aniversário infantil, que muito da minha visão de mundo, da minha consciência crítica e do meu gosto musical começou a se moldar. É, portanto, por agradecimento, que escrevo estas linhas para registrar a tristeza que o silêncio da voz de Mercedes Sosa me causou, no último dia 4, e ainda me causa. Como ela mesma cantou, si se calla el cantor / calla la vida.

Para quem viveu na América Latina nos últimos 40 anos, é razoavelmente bem informado e/ou freqüenta um universo político que se costuma denominar de “de esquerda”, é impossível resumir a importância de Mercedes Sosa a um simples obituário numa página de jornal ou aos breves comentários dos noticiários da TV. Uma mulher que foi, ao mesmo tempo, profundamente indígena e imensamente universal.

Integrada a um movimento musical que na América Latina se convencionou chamar de “Nueva Canción”, Mercedes começou cantando peças do cancioneiro popular, anônimo, cuja temática são quase sempre as lutas do cotidiano de pessoas simples do povo. Ou de poetas e compositores consagrados que tinham como inspiração esses artistas populares.

No entanto, Mercedes, que era argentina de Tucumán, norte do país, nascida em 1935, não cantava apenas os poetas argentinos. Seu repertório veio de praticamente todos os países latinoamericanos, desde que a temática levasse à reflexão sobre uma América Latina livre da opressão, das desigualdades sociais e infundisse em seu público a esperança.

Comunista assumida, em 1979, quando a Argentina vivia sob a pesada ditadura do general Jorge Rafael Videla, Mercedes Sosa exilou-se na Europa, depois de ter sido presa num show em La Plata. E foi esse exílio que lhe deu sua grande projeção internacional, que passou a ser vista pelos fãs – exilados, como ela, ou oprimidos por ditaduras dentro de seus próprios países – como a voz que embalava a luta pela liberdade, não só na América Latina, mas mundo afora. Na época, ela já era bastante conhecida em sua terra, onde, desde os meados dos anos 1960 – quando lançou “Yo no canto por cantar”, Mercedes se tornou uma das principais expressões do novo cancioneiro latinoamericano, marcado pela mistura, tanto nos ritmos como nas letras, das tradições culturais dos países latinos, suas paixões políticas e afetivas.

No Brasil, sua voz se tornou mais conhecida a partir de 1976, através de um memorável dueto com Milton Nascimento, com quem gravou Volver a los 17. Desde então, seu bombo legüero, seu poncho e sua voz encantadora jamais ficaram muito distantes do Brasil. A gravação, que lhe custou uma investigação pelos órgãos da ditadura brasileira, era da mãe da canção de protesto latinoamericana, a compositora e artista plástica chilena Violeta Parra, que havia se suicidado anos antes, depois de deixar poéticos e vibrantes testemunhos de sua luta pela liberdade e de sua conturbadíssima vida amorosa em letras como Gracias a la vida ou a dolorosamente militante La carta (Me mandaron una carta / por el correo temprano, / en esa carta me dicen / que cayó preso mi hermano...).

Nos anos que se seguiram, foi a voz de Mercedes que nos conduziu pelos corredores, labirintos e todos os cantos – mágicos ou sinistros –, da América Latina. Foi assim nos sombrios anos da década de 1970.

Para muitos de nós, brasileiros, que, deformados pela ideologia dominante, às vezes nos esquecemos que somos, também e sempre, latinoamericanos, foi também a poderosa e comovente voz de Mercedes que nos guiou pelos vales e cordilheiras dos Andes, pelas ruas de Buenos Aires e Santiago, mas também sempre nos deixando perto de Cuba, da Nicarágua, de El Salvador ou onde quer que houvesse alguma luta contra a opressão e as injustiças.

Para os que tiveram o privilégio de ver Mercedes Sosa – eu fui assisti-la uma gloriosa vez no Maracananzinho – “la Negra” era como uma daquelas grandes deusas tão presentes nas tradições míticas latinoamericanas, mas também em várias das lendas da mitologia mundial. Grandes cabelos negros (daí o apelido), voz poderosa para protestar contra as injustiças e, ao mesmo tempo, suave, quase sussurando para falar do amor, Mercedes não dominava apenas o palco, mas toda a plateia, hipnotizando a todos nós, que seríamos perfeitamente capazes de sair de seus shows seguindo-a num exército de indignados se ela assim o desejasse.

Testemunho fiel das idéias às quais se manteve fiel até o fim da vida, inclusive a defesa de uma sociedade comunista, a canção Corazón libre, que ela cantou em sua última vinda ao Brasil, é uma espécie de testamento. Nela está registrado o poderoso verso em que Mercedes Sosa dialoga com a morte: Adelante, corazón, sin medo de la derrota. / Durar nos es estar vivo, corázon. Vivir és otra cosa.

Viver, de fato, é outra coisa. Viver é lutar, sonhar, se indignar, mas também saber tirar o máximo da vida, saber arrancar poesia das adversidades. Acima de tudo, viver é ter consciência do nosso papel no mundo. Por isso, não há dúvidas de que Mercedes viveu. E viverá para sempre em suas canções e em nossas lutas.

*Partes deste texto, na verdade, pertencem à crônica “Gracias, Mercedes! Adios, Negra, hermana hermosa!”, de Wilson H. da Silva, publicada no blog Mimecry Ilinx Courrier, http://sturmydrang.blogspot.com/, em 10/10/2009.

domingo, 12 de julho de 2009

OS POEMAS PARA A LIBERDADE DE MANOEL DE ANDRADE: A POESIA COMO ARMA

A editora paulistana Escrituras acaba de lançar o livro Poemas para a Liberdade, do poeta catarinense Manoel de Andrade (http://www.escrituras.com.br/livro.php?isbn=9788575312902), do qual já havia publicado, em 2007, Cantares. Poemas para a Liberdade é, na verdade, é uma reedição. Publicado inicialmente na Bolívia, no Peru e na Colômbia, em 1970, e no Equador, em 1971, é um conjunto de poemas que falam da luta armada e cantam a saga guerrilheira na América Latina dos anos 1970, então controlada por ditaduras militares. Independentemente do seu valor histórico inestimável, Poemas para a Liberdade é uma obra da qual, apesar de tudo, transbordam delicadeza, amor, esperança e por isso consta de vários catálogos de literatura latinoamericana e seus poemas, de várias antologias, como Poesía Latinoamericana – Antología Bilingüe, publicada em 1998, pela editora Epsilon, do México, cujas páginas o autor compartilha, entre outros, com poetas consagrados como o uruguaio Mario Benedetti, falecido este ano.

Os mais jovens talvez não saibam. Os que sabem nem sempre se lem­bram. E os que lembram provavelmente não sintam mais aqueles sentimentos angustiantes e ao mesmo tempo cheios de esperança que moviam milhares de jovens na América Latina em busca de uma sociedade justa e fraterna. Falo dos chamados “anos duros” da ditadura militar no Brasil, logo acompanhada por outras ditaduras, e das lutas de resistência, com as armas possíveis e as imaginadas, contra o autoritarismo, a falta de liberdade e a barbárie que entre as décas de 1960 e 1990 povoaram boa parte da América Latina.

Entre esses jovens havia um, chamado Manoel de Andrade, vindo do interior de Santa Catarina, que começou a se destacar entre os colegas (na época ficaria melhor o termo “companheiro”) de Curitiba, onde decidiu viver, pelo caráter engajado de sua poesia.

Lembre-se que “engajado”, naquela época, era sinônimo de “subversivo” e, quase sempre, também de “comunista”, “palavrões” que, naqueles tempos de Guerra Fria, podiam também ser traduzidos como o “Mal”, em oposição ao “Bem”, representado pelo “Mundo Livre”, isto é, os EUA e seus aliados (quase sempre muito mais por medo do que por afinidade ideológica).

Em 1965, Manoel de Andrade, com sua poesia militante, ganhou o 1º prêmio do Concurso de Poesia Moderna, do Centro de Letras do Paraná. No mes­mo ano, participou da histórica Noite da Poesia Paranaense, ao lado de poetas hoje consagrados como Helena Kolody, João Manuel Simões e o gran­de poeta e compositor Paulo Leminski, no teatro Guaíra, de Curitiba. Em 1968, aos 28 anos, é apontado pela imprensa paranaense como uma dos seus três grandes destaques literários, junto com Jamil Snege e o contista Dalton Ter­visan. No mesmo ano, a revista Civilização Brasileira publica seu poema “Can­ção para os homens sem face”:

Canto a vergonha de ser brasileiro num tempo defecado

canto meu povo

e se ainda não canto meu país,

é porque não sei cantar na presença de homens indecentes;

eu canto sobretudo para aqueles que preservaram seu sonho,

para os que ousaram lutar e morrer por ele,

canto a memória de um guerrilheiro argentino.

E eis que meu verso se endurece

para que eu cante meu melhor combate

e só assim posso cantar para os irmãos e camaradas

recrutando companheiros para a luta...

e quando meu canto é feito para os ouvidos dos justos,

eu canto sem temor [...]

[...]

Como guerreiros invisíveis

meus versos se infiltrarão no país dos corruptos

pelas fronteiras das entrelinhas

e renascerão nos lábios dos militantes

ora como uma flor, ora como um fuzil.

Talvez, mesmo que esses versos façam algum sentido para você e mesmo que possam ser identificadas, lá no distante 1968, vergonhas muito pa­re­cidas com as de hoje, e que possamos também reconhecer este nosso tempo, de democracia e liberdade, como um “tempo defecado”, de “homens indecentes” ou um “país dos corruptos”, talvez seja quase impossível imaginar o que significava isso naqueles “anos de chumbo”. Outras palavras do poema expressam melhor que clima era aquele: eram os tempos dos “que ousaram lutar e morrer”, que evocava “a memória de um guerrilheiro argentino” – Er­nes­to Che Guevara, morto no dia 8 de outubro do ano anterior em nome de uma luta que se pretendia internacional contra a injustiça do capitalismo e, par­ti­cu­lar­mente na América Latina, contra a opressão dos ditadores. Por isso o poema de Manoel de Andrade era feito de versos para “cantar para os irmãos e ca­ma­ra­das”, “recrutando companheiros para a luta”, “ora como uma flor, ora como um fuzil”.

Não podia ter dado outra coisa. Em março de 1969, perseguido pelo re­gi­me militar, principalmente pelo fato de ter feito panfletagem de seu poema “Saudação a Che Guevara”, Manoel de Andrade foge do Brasil. Nessa época sua poesia já começava a ser conhecida por todo o país por meio de jornais e re­vistas literárias. Nos perigosos versos que lhe valeram a fuga do país, ele di­zia:

No nosso ódio indigesto

na voz da rebelião,

na passeata de protesto

em cada homem sem pão,

em cada cidadão livre

que é metralhado na rua,

no seio de cada greve

no salário de quem sua,

no estômago que late

na opressão e na fome

nesse mal que nos consome

como farol claro e forte

surge tua imagem, teu nome

teu braço de guerrilheiro

teu sonho e tua verdade

nos apontando o roteiro

em busca da liberdade.

A força e a contundência desses versos, hoje, podem parecer ingenui­da­de, coisa de uma juventude demasiadamente crédula, especialmente empol­ga­da com o sucesso da Revolução Cubana, em janeiro de 1959, e com seu herói mais charmoso, Che Guevara, filho de uma família de classe média argentina que, depois de percorrer toda a América Latina, conhece, no México, os irmãos Fi­del e Raúl Castro e, com um pequeno grupo, resolve se meter numa “a­vem­tu­ra” que por acaso deu certo. Mas, insisto, não é possível ter uma visão mi­ni­ma­mente clara daqueles jovens (que, aliás, se transformaram em alguns de nós atualmente ou já nos pais de muitos outros que agora lêem esse meu post) e, consequentemente, da poesia de Manuel de Andrade sem nos fixarmos na é­poca em que tudo isso aconteceu. Ou, então, como explicar que um simples poema pudesse ser o principal responsável pela saída de alguém do próprio país, deixando pra trás família, amigos, projetos, o curso de uma vida?

Mas a vida de cavaleiro andante de Manoel de Andrade estava só co­me­çan­do. Ao deixar o Brasil foi para a Bolívia, onde continuou escrevendo e di­vul­gan­do seus poemas engajados. Em 1970 é lançado, pelo Comitê Central Re­vo­lu­cionário da Universidad Mayor San Andrés, em La Paz, seu primeiro livro, Po­e­mas para la libertad, publicado também pelas federações universitárias de Cuz­co e de Arequipa, no Peru, que foram consumidas e reeditadas em todo mei­o estudantil do Peru e cujos exemplares se espalharam por toda a América do Sul, levados por mochileiros e estudantes latinoamericanos.

Mas a ampla aceitação de seus poemas pela juventude universitária não deram a Manoel de Andrade nenhuma tranquilidade. Muito pelo contrário, essa a­ceitação representava ainda mais perigo, perseguições, fugas. Expulso da Bo­lí­via em 1969, antes da publicação de seu livro, foi para o Peru, de onde tam­bém foi expulso, no ano seguinte, e para a Colômbia, onde, no mesmo ano, so­fre o mesmo destino. O alcance da sua militância política pode ser avaliado pe­lo destaque que na época os mais importantes jornais da América Latina e as mai­ores agências internacionais de informações, como a AP e a UPI, deram a ele. Numa época em que não havia telefones celulares nem internet, pode-se imaginar o perigo que seus poemas revolucionários podem ter representado.

Conhecido por promover debates, ministrar palestras e declamar seus versos em universidades, teatros, galerias de arte, festivais de cultura, congres­sos de poetas, sindicatos, reuniões públicas, privadas e clandestinas e até no in­terior das minas de estanho da Bolívia, Manoel de Andrade e seus versos não podiam ser vistos como nada menos do que muito perigosos. Por isso o governo peruano o expulsa do país “por realizar atividades que constituem um manifesto perigo para a tranquilidade pública e segurança do Estado”.

Mas a aventura de Manoel de Andrade não pararia aí. Em 1971 estava no México, onde, entre outras coisas, se apresentou no Instituto Mexicano-Cubano; participou das comemorações do 37º aniversário de morte do herói revolucionário nicaraguense Augusto César Sandino; viajou para a Califórnia, nos EUA, onde ministrou várias palestras e recitais em organizações chicanas e nas universidades de Los Angeles e Berkeley. É o próprio autor quem nos conta, generosamente, parte dessa trajetória:

Eu chegara ao México, depois de cruzar, ao longo de três anos, todos os países da América Latina (exceto Venezuela) e trazia, desfraldada na alma, a bandeira das lutas de liberação na­cio­nal que incendiavam o Continente e por isso, depois do meu recital no Instituto Mexicano-Cubano, na Cidade do México, fui "convocado" para levar aos Chicanos (norteamericanos de origem mexicana) a notícia do que se passava na América, como um estímulo à sua luta no contexto de segregação em que viviam dentro das próprias entranhas do "monstro" impe­ri­a­lis­ta. É uma fase belíssima da minha vida que não posso contar aqui. Meu livro "Poemas para a Liberdade", teve sua 3ª edição en San Diego. Ao cabo de três meses tive que voltar ao Mé­xi­co para novo visto no passaporte, mas quando tentei voltar para terminar minha "missão", os yanques já não me permitiram a entrada. Do México fui para Ecuador, onde dei um cliclo de pa­les­tras na Universidade Central do Equador, sobre problemas centro-americamos [...] e mexi­ca­nos. No Equador publicaram a 4ª edição do meu "Poemas para a Liberdade". Depois de dois me­ses tive que sair correndo de Quito (onde cheguei a primeira vez, expulso do Peru e a se­gun­da, espulso da Colômbia) porque fui acusado pelos estudantes de agente da CIA. (Eles não entendiam como é que eu corria a America Latina, pra cima e pra baixo, e estava sempre infil­tra­do entre a classe estudantil e o pessoal de esquerda.) Fui alertado por um amigo estudante de arquitetura e saí por Quayaquil, num transatlântico italiano (Rossini) e entrei, sem pro­ble­mas, no Peru, pelo porto de Callao. Resolvidos alguns problemas no Peru, fui pro Chile de Allen­de, onde comecei a escrever minhas memórias de viagem e artigos para o jornais e re­vis­tas sobre o problema dos chicanos e sobre o colonialismo português na África. Minha mulher foi pra Santiago e, pela minha filha, voltei com ela pro Brasil em meados de 72, e em Curi­ti­ba, depois de descobrir que o DOPS já sabia da minha volta e me procurava, transferi minha OAB para Santa Catarina, para tentar advogar. Mas também lá o clima de repressão e espi­o­na­gem era terrivel. Era a época em que estava começando a Guerrilha do Araguaia. Voltei pra Curitiba e passei a viver no anonimato social e literário. Por indicação de um amigo, e para so­bre­viver, fui vender a Enciclopedia Delta Larousse. Ninguem sabia onde eu estava. Somente aparecia no fim do mês para entregar os meus contratos de venda e receber minha comissão. Em seguida sumia pelo interior do Paraná ou Santa Catarina e somente minha família sabia de mim. Foi uma bela estratégia porque eu pude trabalhar e me esconder ao mesmo tempo.

[...]

Voltei a escrever em setembro de 2002 [...], durante os 30 anos que não escrevi nada, mas tive uma vida muito intensa e acabei esquecendo que eu era poeta [...], mas também tive uma vida intelectual muito rica.

Tive o privilégio de conhecer Manoel de Andrade graças à coincidência de termos uma amiga em comum, a antropóloga e historiadora Philomena Gebran, a quem ele não via há mais de 30 anos e que, através de mim, graças às maravilhas da internet, pôde reencontrar em Curitiba, onde ambos moram atualmente. Somos, portanto, apenas amigos virtuais. Mas é como se fôssemos amigos há muitos anos, compartilhando a maior parte dos sonhos, das grandes frustrações e, principalmente, as esperanças que os muitos sustos da vida não conseguiram levar. Naqueles tempos difíceis parecia para muitos que a força das armas – e, no caso de Manoel Andrade, a sua eram os versos – era o caminho. Hoje, não sei qual o caminho (e acredito que ele também não), mas continuo acreditando, como ele, em uma sociedade justa, humana, fraterna. Por isso recomendo com veemência a leitura dos seus Poemas para a Liberdade. Pelo menos para que os que não saibam fiquem sabendo, os que sabem se lembrem e os que lembram voltem a pensar sobre a esperança.

terça-feira, 21 de abril de 2009

SOMÁLIA: ESTÃO NOS MENTINDO SOBRE OS PIRATAS

Têm ocorrido várias mudanças na minha vida pessoal. Mudanças que me têm tomado bastante tempo. Por isso tenho andado bastante afastado das minhas "obrigações" para com o blog. Estou devendo, por exemplo, um comentário sobre o belo livro Poemas para a Liberdade, do poeta catarinense Manoel de Andrade, que prometo ser meu próximo post.

Mas hoje não resisti. Acabo de receber a retransmissão da tradução de um artigo do jornalista Johann Hari, que escreve duas vezes por semana para o importante jornal britânico The Independent. Além de colaborar com o também britânico Huffington Post, ele ainda escreve para o New York Times, o Los Angeles Times, Le Monde, Le Monde Diplomatique, The New Republic, El Mundo, The Guardian, The Melbourne Age, o Sydney Morning Herald, o Star, da África do Sul, e The Irish Times, da Irlanda, além de vários outros jornais e revistas internacionais.

O tema, além de ser polêmico, mexe com o imaginário de muita gente e, graças a aulas mal dadas de História, a várias superproduções hollywoodianas ou a uma mídia mal informada ou mal intencionada (ou as duas coisas), tem se prestado a uma série de interpretações bastante equivocadas: pirataria. Neste caso, a situação é trágica porque envolve ataques militares das marinhas da Inglaterra, EUA, China e mais uma dúzia de países para combater os chamados "piratas do século XXI" da Somália. Vejamos o que o conceituado Johann Hari tem a dizer sobre isso. O artigo foi publicado originalmente no dia 12 de abril último no Independent e reproduzido no próprio blog do autor.
Quem imaginaria que em 2009 os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê esse artigo, a Marinha Real Inglesa – e navios de mais 12 nações, dos EUA à China – navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilãos de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos "ocidentais" estão rotulando como "uma das maiores ameaças de nosso tempo" teem uma história extraordinária a contar – e, se não teem toda a razão, teem pelo menos muita razão. Os piratas jamais foram exatamente o que pensamos que fossem. Na "era de ouro dos piratas" – de 1650 a 1730 – o governo britânico criou, como recurso de propaganda, a imagem do pirata selvagem, sem propósito, o Barba Azul que ainda sobrevive. Muita gente sempre soube disso e muitos sempre suspeitaram da farsa: afinal, os piratas foram muitas vezes salvos das galés, nos braços de multidões que os defendiam e apoiavam. Por quê? O que os pobres sabiam, que nunca soubemos? O que viam, que nós não vemos? Em seu livro Villains of all nations, o historiador Marcus Rediker começa a revelar segredos muito interessantes. Se você fosse mercador ou marinheiro empregado nos navios mercantes naqueles dias – se vivesse nas docas do East End de Londres, se fosse jovem e vivesse faminto –, você fatalmente acabaria embarcado num inferno flutuante, de grandes velas. Teria de trabalhar sem descanso, sempre faminto e sem dormir. E, se se rebelasse, lá estavam o todo-poderoso comandante e seu chicote [em inglês, the cat o’nine tails, literalmente, "o gato de nove rabos"]. Se você insistisse, era a prancha e os tubarões. E ao final de meses ou anos dessa vida seu salário quase sempre lhe era roubado. Os piratas foram os primeiros que se rebelaram contra esse mundo. Amotinavam-se nos navios e acabaram por criar um modo diferente de trabalhar nos mares do mundo. Com os motins, conseguiam apropriar-se dos navios; depois, os piratas elegiam seus capitães e comandantes, e todas as decisões eram tomadas coletivamente; e aboliram a tortura. Os butins eram partilhados entre todos, solução que, nas palavras de Rediker, foi "um dos planos mais igualitários para distribuição de recursos que havia em todo o mundo, no século 18 ". Acolhiam a bordo, como iguais, muitos escravos africanos foragidos. Os piratas mostraram "muito claramente – e muito subversivamente – que os navios não precisavam ser comandados com opressão e brutalidade, como fazia a Marinha Real Inglesa". Por isso eram vistos como heróis românticos, embora sempre fossem ladrões improdutivos. As palavras de um pirata cuja voz perde-se no tempo, um jovem inglês chamado William Scott, voltam a ecoar hoje, nessa pirataria new age que está em todas as televisões e jornais do planeta. Pouco antes de ser enforcado em Charleston, Carolina do Sul, Scott disse: "O que fiz, fiz para não morrer. Não encontrei outra saída, além da pirataria, para sobreviver". O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde jogar todo o lixo nuclear do planeta. Exatamente isso: lixo atômico. Nem bem o governo desfez-se (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que jogavam ao mar contêineres e barris enormes. A população litorânea começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebês malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes. Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: "Alguém está jogando lixo atômico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos". Parte do que se pode rastrear leva diretamente a hospitais e indústrias europeias que, ao que tudo indica, entregam os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de "descarregá-los" - e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse "negócio", ele suspirou: "Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação, nem prevenção". Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma de suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus estoques naturais de pescado pela superexploração – e, agora, está superexplorando os mares da Somália. A cada ano saem de lá mais de 300 milhões de atuns, camarões e lagostas; são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome. Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 quilômetros ao sul de Mogadishu, declarou à Agência Reuters: "Se nada for feito, acabarão com todo o pescado de todo o litoral da Somália". Esse é o contexto do qual nasceram os "piratas" somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos, como meio de extrair deles alguma espécie de compensação. Eles se autodenominam "Guarda Costeira Voluntária da Somália" e a maioria dos somalianos os conhece sob essa designação. [...] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos "aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional". Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gângsteres misturados nessa luta – por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme [Programa Mundial de Alimentos, da ONU]. Mas, em entrevista por telefone, um dos líderes dos piratas, Sugule Ali disse: "Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam nosso peixe". William Scott entenderia perfeitamente. Por que os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (dentre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e intrometeram-se no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo… imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra. A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século 4º a.C. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou "o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares". O pirata riu e respondeu: "O mesmo que você, fazendo-se de senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado de ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador". Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália – mas… quem é o ladrão?